Feevale e a crise no Vale dos Sinos


Vivo, moro, trabalho e estudo no Vale dos Sinos há praticamente dois anos. Vim para cá, pois recebi uma ótima e desafiadora proposta de trabalho em uma empresa de tecnologia, que é da minha família; apesar dessa região do Rio Grande do Sul ficar a menos de cinqüenta quilômetros da capital, de onde eu vim, as diferenças que encontro aqui, mesmo nesse pouco tempo, levantaram muitas dúvidas e questionamentos e que me motivaram a escrever e falar.

A região está em crise há vários anos, mas, pelo que venho escutando e observando, nos últimos tempos, ela se intensificou consideravelmente. Só para se ter idéia, citarei alguns exemplos: o ramo calçadista, principal setor produtivo da região, terminou o ano de 2005 contabilizando, aproximadamente, 17 mil demissões, por onde se anda, nas ruas das cidades da região, o que mais se vê são placas de “Aluga-se” e “Vende-se”, empresas de porte e nome estão mudando suas operações para outros estados ou paises ou então estão mudando de ramo ou mesmo fechando as portas. . Os motivos que justificam isso são diversos, mas os mais comentados são, basicamente, a China, o dólar e o governo.

Sei que as pessoas daqui têm muitas qualidades e características, provavelmente, herdadas da colonização germânica, que admiro muito, como seriedade, honestidade, organização, dedicação ao trabalho... Mas logo nos primeiros dias que comecei a trabalhar na nova empresa ou depois na faculdade, onde convivi mais com essas pessoas, tive algumas impressões que, a cada dia, estão deixando de ser apenas impressões e estão se tornando certezas. Até hoje eu não consigo deixar de fica impressionado com a falta de espírito critico, de como o "meia-boca" pode ser bom, da incapacidade que essas pessoas têm serem criativas, da incrível resistência a mudanças, da baixa exigência e da inigualável capacidade de colocar a culpa de tudo nos outros, principalmente na China, no dólar e no governo.

Conversando com amigos, colegas, clientes, professores e, principalmente, com pessoas que vivem aqui há mais tempo, consegui achar alguns motivos que, talvez, expliquem, em parte, o que está acontecendo. Ouvi muitas historias, comentários, reclamações e teses que tentam explicar a situação da região, mas a que, para mim, mais faz sentido é a que um colega de faculdade falou: "As pessoas por aqui sempre ganharam muito dinheiro, muito fácil, antigamente, sem concorrência, qualquer coisa dava certo. Os empresários não tinham preparo, o nível de exigência era mínimo e, mesmo assim, tiveram muito sucesso". Definitivamente os tempos mudaram, passados, sei lá, uns dez, vinte ou trinta anos o mundo, a economia, os clientes e a forma de fazer negócios mudou. Entretanto, esses empresários e funcionários continuam com a cabeça e as atitudes que funcionavam antes. Os resultados dessas atitudes estão mais do que evidentes no cenário econômico do Vale dos Sinos, mas o que eles não conseguem ver é que, grande parte, do problema não está na China, no dólar e no governo.

Sei que crises, altos e baixos acontecem a todos os momentos, em qualquer lugar, mas o que me deixa muito preocupado é que a faculdade que eu freqüento e que, teoricamente, está formando as pessoas que irão herdar e comandar as empresas e negócios dessa região, está trabalhando eficientemente para formar gente que pensa e age como os empresários e funcionários que citei acima. Uma instituição de ensino que exige muito pouco dos seus alunos, sou prova disso, pois, em todos os anos que eu estudo, no semestre passado, meu primeiro semestre na Feevale, foi o período acadêmico que precisei fazer menos esforço, fiz os trabalhos mais porcos da minha vida, faltei muito e não estudei para nenhuma prova e, para minha surpresa, a media final, mais baixa, foi 84. Quando paro para pensar, isso me causa arrepios, pois, tenho a impressão, de que professores e alunos estão envoltos nesse pacto de mediocridade e não conseguem enxergar os que efeitos isso causa além dos muros da instituição, ou seja, na sociedade. Dentro desse contexto acredito que não seria impossível ouvir, por exemplo, um professor de marketing, ensinar os seus alunos, que a única solução para combater a concorrência com a China é fazendo boicote a seus produtos. Ou seja, evitar que os alunos precisem pensar em formas de utilizar o marketing para diferenciar e criar valor para os clientes e assim fazer com que os produtos que são produzidos aqui não ficarem tão vulneráveis. Também poderíamos imaginar que um mestre que leciona administração financeira, em um determinado exercício passa uma taxa de juros ao ano e exige a taxa de juros ao dia, para colocar em uma fórmula. Só que a conversão exigida deve seguir as regras dos juros simples, mesmo sabendo que juro simples, na vida real, praticamente não é utilizado. Acredito que caso ele seja questionado sobre o motivo de não exigir a conversão através dos juros compostos, que é mais complicado, mas é o que realmente é utilizado e dessa forma os alunos poderiam utilizar aquele conhecimento no dia-a-dia, ele responderia apenas: "é para não complicar". Isso são suposições do que poderia acontecer em aulas, baseado nas minhas impressões e no que presenciei em outras instituições de ensino superior e o que observo na Feevale. Com certeza, tenho ótimos professores nesta instituição e que são mais exigentes que a média dos profissionais que lecionam nela, mas, mesmo assim, poderiam e deveriam, tranqüilamente, cobrar e exigir bem mais dos alunos.

Essa região é um lugar muito bom para morar e há incríveis oportunidades de negócio. Sem dúvida, a maior delas é exatamente onde faço as minhas maiores criticas, no sistema de ensino. Temos uma quantidade enorme de gente que está sendo subutilizada e mal acostumada. É necessário que seja feito algo para as pessoas se darem conta de que continuar fazendo o que é feito há décadas nessa região, não vai garantir o desenvolvimento amanhã, bem pelo contrario. É extremamente necessário deixar de pensar que se subir a exigência, aumentar os desafios, fazer algo para as pessoas mexerem-se e saírem da zona de conforto irá fazer com que elas, que não estão acostumadas com isso, se machuquem e se magoem ou não consigam acompanhar. Acredite, é melhor o pessoal errar, tentar e aprender isso durante a graduação, onde existe espaço para tentativas e erros do que na vida profissional, que, muitas vezes, não temos uma segunda chance. Se isso não for feito nesse momento, não tenho dúvida que seremos atropelados e o máximo que poderemos fazer é tentar levantar a cabeça para anotar a placa e, tenho certeza, que muitos irão anotar isto: China, Dólar e governo.

2 comentários:

Charlles Nunes disse...

Fala, Márcio!

Faço das suas, as minhas palavras.
Vivi a mesma situação na época da faculdade... e dói, viu?

M-A-A-S, como bom brasileiro, acredito que este País ainda tem jeito, a começar por gente como a gente, que acredita no que faz.

Iniciei o 'Aprender a Empreender' pelo SEBRAE, e já estou colocando em prática as lições vivenciadas.

Com uma idéia na cabeça, objetivos bem definidos e bastante suor (+ comunicação), a gente chega lá.

AbrAÇO!

Charlles
www.learn-portuguese-now.com
The More You Learn, The More You Can

Marcio Eugênio disse...

Valeu pela visita charlles!!

eu já fiz esse curso do Sebrae e é muito bom.

Quebra tudo por ai e volte sempre

[]s
Marcio